Ritmos Brasileiros: Ijexá

História do Ijexá

A partir da colaboração de Regina e Paloma, através dos comentários desta publicação, foi adicionado em 15/01/2019 a seção em azul:

É importante lembrar que Ijexá não é apenas um ritmo mas sim uma nação:

“O ritmo homônimo, de toque cadenciado, amplamente conhecido na cidade e vinculado aos afoxés e ao Carnaval, tem as suas origens diretamente articuladas aos integrantes desta nação, que tinham o costume de caminhar em procissão pela cidade – por exemplo, para presentear Iemanjá no Rio Vermelho.

Foi por causa dessa característica que se confundiu uma nação de Candomblé com um ritmo musical. Os ijexás saíam nas ruas levando os presentes e tocando os tamborzinhos. Aí se dizia: são os ijexás. O rito se confundiu com o ritmo e o ritmo nos anos 80 passou a substituir o rito. Infelizmente, hoje quando se fala ijexá se pensa logo no ritmo e não na nação”, complementa Vilson.

Sugestão de leitura complementar: “Tombamento do Ilê Axé Kalè Bokùn garante preservação do mais antigo terreiro ijexá do país“. Texto completo emhttp://www.atarde.uol.com.br/muito/noticias/

O RÍTMO:

A seção rítmica do Ijexá tem origem africana e é tocada nos terreiros de candomblé da Bahia. Não podemos falar de Ijexá sem falar dos Afoxés. A origem e a postura dos afoxés estão diretamente ligadas aos preceitos do candomblé, inclusive na utilização dos instrumentos (atabaques, agogôs, xequerês etc.). Seus componentes usam trajes de inspiração africana, e cantam músicas geralmente em dialetos africanos.

A palavra Ijexá tem origem no vocábulo Ijèsá, uma subdivisão da etnia iorubá e o nome da cidade nigeriana que é considerada o berço do grupo. Nessa cidade se cultuam sobretudo Oxum e Logun-Edé – e o Ijexá designa o ritmo das danças principais desses orixás. Tocam-se, também, ijexás (ainda que não seja o ritmo predominante) para Exu, Osain, Ogum, Oyá, Obá, Oxalá, Orunmilá. O Ijexá é realizado nos terreiros somente com as mãos, dispensando o uso dos aguidavis (as baquetas de percussão). O ritmo é suave e cadenciado, emoldurando a dança dengosa e sensual de Oxum e Logum. O gã (agogô) acompanha sempre os atabaques, marcando o compasso.

De ritmo praticado nos terreiros da Bahia e do Brasil, o ijexá acabou também chegando ao carnaval, a partir da criação dos afoxés baianos (cortejos carnavalescos de adeptos do candomblé) no final do século XIX. Algumas pessoas e até mesmo alguns livros fazem certa confusão ao citar o afoxé como um ritmo. O afoxé é o cortejo – o ritmo que emoldura o cortejo é o ijexá. A expressão afoxé, inclusive, vem do iorubá àfose (encantação pelo som, pela palavra) . Os cubanos usam a expressão afoché para designar o ato de enfeitiçar alguém com o pó da magia. Ao toque do Ijexá, os antigos afoxés buscavam encantar os concorrentes, desfilando pelas ruas em formato processional. O afoxé Filhos de Gandhi, fundado por ogãns de candomblé na década de 1940, até hoje se apresenta no carnaval ao som do ijexá – e começa sempre o cortejo tocando para Logun-Edé.

Vamos ouvir alguns Ijexás?

Clara Nunes “Ijexá” – LINK

Djavan “Sina” – LINK

O Que Foi Feito Devera (De Vera) – Elis Regina e Milton Nascimento (1978)- LINK

Gerônimo “É D’Oxum” – Versão 1Versão 2

Gilberto Gil – “Palco” LINK

Caetano Veloso “Beleza Pura” – LINK

Caetano Veloso “Queixa” LINK

Instrumentação típica:

Agbê – Também conhecido como xequerê, este instrumento é composto por uma teia de miçangas que envolve uma cabaça. Instrumento que veio dos terreiros, para compor junto com o batuque do maracatu, uma função de condução similar ao do ganzá.

Caixa  – Tambor agudo que possui na pele de resposta uma esteira ou bordão produzindo um som rufado e característico. Possui frases rítmicas com grande quantidade de notas o que dá a este instrumento a possibilidade de coordenar e harmonizar as alfaias. São as caixas de guerra, juntamente com os taróis, que dão a chamada para a entrada dos outros instrumentos.

Gonguê – Instrumento formado por uma campânula de ferro e um cabo que serve de apoio. Tem o formato aproximado de um sino de ponta a cabeça ou um agogô de uma só boca. As frases rítmicas do gonguê são geralmente formadas por contratempos e sincopas com grande liberdade de improviso.

Alfaias – Também chamadas de bombos ou zabumbas. São tambores graves, de grandes dimensões, originalmente feitos do tronco da Macaíba (árvore que se parece com a Palmeira). Seus aros são feitos de Genipapo e o bojo é trançado por uma corda de sisal. Com frases sincopadas e bem marcadas, são responsáveis pelas características principais de cada toque ou baque. Muitas vezes dividem-se em três grupos, pelo seu tamanho ou afinação tendo cada grupo uma função rítmica diferente.

Baixar o áudio para praticar: ACESSE AQUI

Baixar a partitura: ACESSE AQUI

Artigos de referência:  1- aqui e 2- aqui

CONHEÇA TAMBÉM O BAIÃO

8 comments

    1. Oi Paula. As referências que usei para esta publicação estão no final do texto: “Artigos de referência: 1- e 2”. De resto, são materiais elaborados por mim (como as partituras e áudios). Estou pensando em fazer um segundo texto sobre o Ijexá para desenvolver um pouco mais o assunto, tendo em vista que este é um dos posts mais acessados aqui no blog.

      Obrigado pela leitura.
      Grande abraço.

  1. Salve Marcelo!
    Grata surpresa conhecer teu espaço virtual de reflexão musical! Parabéns!
    Muito interessante e fundamentado em pesquisas, o que referencia e ilustra o cuidado que manténs nas tuas postagens.
    Te convido a conheceres o meu espaço onde também, na medida do possível, procuro dialogar com a teoria e a prática!
    Seja bem vindo!!
    Eis o link: http://violaocomvoz.com.br/blog/

    1. Obrigado pela colaboração Paloma. Alterei a seção inicial do texto em função da seu comentário. Abração.

  2. http://atarde.uol.com.br/muito/noticias/2026554-tombamento-do-ile-axe-kale-bokun-garante-preservacao-do-mais-antigo-terreiro-ijexa-do-paisVermelho.

    “Foi por causa dessa característica que se confundiu uma nação de Candomblé com um ritmo musical. Os ijexás saíam nas ruas levando os presentes e tocando os tamborzinhos. Aí se dizia: são os ijexás. O rito se confundiu com o ritmo e o ritmo nos anos 80 passou a substituir o rito. Infelizmente, hoje quando se fala ijexá se pensa logo no ritmo e não na nação”, complementa Vilson.

    1. Obrigado pela colaboração Regina. Alterei a seção inicial do texto em função da sua importante sugestão de leitura. Abração.

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