Caixa-Clara – Repertório

Dentro da diversidade de instrumentos do universo percussivo (aqueles que costumamos categorizar como instrumentos de percussão), sou um grande admirador da caixa-clara. Não de maneira exclusiva mas talvez por ter aprendido a tocar tarol ainda na adolescência, em bandas de fanfarra e depois trabalhado como instrutor de bandas escolares na rede municipal de ensino. Dessa forma ampliei meu interesse por estudar e conhecer melhor este tambor.

O termo “caixa-clara” designa um tipo específico de tambor (cilíndricos) com 2 peles e uma esteira na parte inferior. É tocada tradicionalmente com par de baquetas e segundo o Dicionario de Percussão de Mário D. Frungillo, “tem sua origem relacionada com os tambores usados nas operetas Vieneses e na música ligeira do séc. XIX.” Outros nomes usados para referir-se a caixa-clara são: Caisse claire [Fr.], Cassa chiara ou Tamburo chiara [ital.], Kleine Trommel [Alem.] e Tambor bordonero [Espan.].

O livro Percussion Instruments and Their History [do autor James Blades] aponta para a peça Iphigénie en Tauride (“Ifigênia em Táuris“, em francês) do compositor alemão Christoph Gluck como uma das primeiras obras orquestrais a apresentar partes escritas para caixa-clara.

É importante lembrar que existe um “repertório tradicional” para a caixa-clara. São obras musicais que historicamente tornaram-se elementares (de referência) para o estudo e a prática musical no instrumento. A seguir trago algumas obras clássicas e também exemplos de materiais de estudo utilizados em universidades Americanas e Brasileiras.

Caixa-clara (rudimentos)
14 Modern Contest Solos for Snare Drum, John Pratt
150 Rudimental Solos, Charlie Wilcoxon
Wilcoxon’s Snare Drum Solos
Mitchell’s Drum Solos, Harland Mitchell
Jazz Chops, Charles Perry
Double Cappuccino, Mitchell Peters
The Downfall of Paris, Traditional
Dixie, Traditional
The Three Camps, Traditional
The Charger, Arthur Cappi
Rudiments Rule, John Wooten

Caixa-clara (orchestral):

Contemporary Album for the Snare Drum, Stanley Leonard
Recital Solos for Snare Drum, Garwood Whale
Recital Suite, Guy Gauthreaux
Recital Suite for Solo Snare Drum, William Shinstine
Six Unaccompanied Solos for the Snare Drum, Michael Colgrass
Suite for Solo Snare Drum, Michael LaRosa
Three Dances, Warren Benson

Fonte: https://www.utm.edu/departments/percussion/samplerepertoire.php

Do repertório mais contemporâneo para caixa-clara destaco a obra Kim do compositor Askell Masson. As composições de Másson (1953-*) destacam-se por sua profundidade de expressão e brilho do som. Um compositor freelance desde os anos 80, sua música para percussão já nos anos 70 foi ganhando a atenção internacional pela originalidade e a abordagem incomum dos instrumentos de percussão. Muitos deles estão agora entre os estudos obrigatórios em universidades de música, como por exemplo na Escandinávia, Suíça, Japão e EUA.

Sua música é regularmente realizada em todo o mundo pelas principais orquestras, tais como a New York Philharmonic, Orquestra de Cleveland, Toronto Symphony Orchestra, BBC Symphony Orchestra, Filarmónica da Radio Paris, Rádio Symphoniker, Wien, Residenz Orkest Den Haag, New Juillard Ensemble, o Ensemble Intercontemporain, Kroumata, conduzido por, entre outros Esa-Pekka Salonen, Leonard Slatkin, Ivan Fisher, Leif Segerstam, Petri Sakari, Osmo Vänskä, Andrew Massey e John Storgards.

Másson trabalhou em Copenhaga, Estocolmo, Londres e Paris, colaborando com artistas como Roger Woodward, Evelyn Glennie, Benny Sluchin, Gert Mortensen e Christian Lindberg, para citar alguns. Entre suas principais obras são a grande ópera “The Ice Palace”, oratório Cecilia, 3 sinfonias, 15 concertos e outras obras orquestrais. Uma abundância de solos e musica de câmara para um grande número de combinações. Além de música de concerto, ele compôs música para inúmeras peças de teatro, filmes e música para programas de TV.

Depois que a caixa-clara começou a ser usada amplamente na música clássica e corpo militar, grandes mudanças ocorreram na sua forma de fabricação e, consequentemente, na sonoridade. Uma mudança muito importante foi a implementação de um sistema mecânico de acionamento de esteira (esteira = fios de metal) que pode assim alterar o som do tambor quando acionada, garantindo rapidez e eficiência ao percussionista. Na atualidade é possível encontrar um grande número de empresas fabricantes deste tipo de tambor para percussão.

Como sugestão de estudo disponibilizo a peça “Downfall of Paris”. Esta é uma cadência rítmica que teve origem nas marchas militares. É estilisticamente descendente das primeiras marchas militares e um bom exemplo de cadência para caixa-clara. As marchas e cadências são formas de proporcionar ritmo para marchar.

A partir do século XX a caixa-clara se estabelece também como tambor junto ao kit de bateria. O tambor começou a ser usado em uma grande variedade de gêneros e estilos musicais incluindo rock and roll e jazz.

Ouça 2 exemplos de peças para caixa-clara. A faixa nº 2 é “Downfall of Paris” (partitura acima).

 

Normalmente nas bandas militares, cada instrumento tem uma linha melódica que pode imitar um tambor específico (ou um conjunto de tambores) para criar um som semelhante ao ritmo do tambor. No caso de “Downfall of Paris” o instrumento é a flauta. Segue a partitura da melodia de The Downfall of Paris.

Referência complementar: https://pentagrammi.wordpress.com/2008/06/13/snare-drum-cadence-1/

Grande abraço.

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