Humberto Eco e a cultura de massa

“O universo das comunicações de massa é – reconheçamo-lo ou não – o nosso universo; e se quisermos falar de valores, as condições objetivas das comunicações são aquelas fornecidas pela existência dos jornais, do rádio, da televisão, da música reproduzida e reproduzível, das novas formas da comunicação visual e auditiva. Ninguém foge a essas condições, nem mesmo o virtuoso, que, indignado com a natureza inumana desse universo da informação, transmite o seu protesto através dos canais de comunicação de massa, pelas colunas do grande diário, ou nas páginas do volume em paperback, impresso em linotipo e difundido nos quiosques das estações.” (Umberto Eco – Apocalípticos e Integrados).

Para concordar com Umberto Eco na citação acima, é importante analisar que a educação escolar (nas diferentes configurações) também está embretada dentro desse universo da industria cultural. É sempre importante e necessário pensarmos sobre as relações estabelecidas entre  educação e industria cultural. Não se trata de aceitar, enfrentar ou mesmo fugir de determinado tipo de cultura, mas sim situar-se neste contexto onde os valores culturais ora estão condicionados, ora fornecidos pela comunicação de massa.  O que Eco coloca é que participamos todos (inevitavelmente) destes movimentos de consumo. E destaco neste cenário a escola como um importante recorte da discussão.

Penso que a escola não pode colocar-se “fora” do debate, como se estivesse em um lugar de contemplação do mundo. Não será a educação um lugar privilegiado para pensarmos o cenário cultural atual, esquizofrênico, fomentador do consumo?

Aqueles conhecidos jargões típicos do professor “apocalíptico” não funcionam mais:

– O repertório musical do rádio e da TV é “pobre”!

– Isso é musica para o consumo!

– Não se faz mais música de “qualidade”.

– Arte para entretenimento não tem valor cultural, etc…

Tornaram-se argumentos pífios produzidos no senso-comum. Em outros tempos era mais fácil determinar o “bom” e o “ruim” ou defender a “música boa”. O grande problema é que o conceito de “música boa” só sustenta-se dentro de uma forte argumentação, tendo em vista que qualquer critério estabelecido lida com seus limites de validade.

Para construir uma crítica da cultura de massa ou industria cultural – ou ainda, para problematizar esses conceitos frágeis, genéricos e polêmicos – é necessário um bom discurso. A argumentação também é trabalho a ser desenvolvido dentro da escola. Tudo certo.

Marcelo Borba 😉

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